O celular desperta....
Ainda embriagado pelo sono turbulento da noite,
levanto e faço com que a música pare de tocar;
Volto à cama na esperança de um último cochilo
mas, o relógio não para e não posso impedir da rotina se iniciar.
Em poucos minutos o despertar realmente acontece,
a ducha lava o corpo e a mente como num ritual de energização,
necessário para enfrentar o dia que se inicia.
Tento imaginar nesses instantes como serão as próximas 12 horas
e faço o possível para vislumbrar novas atividades e novos desafios.
Componho a vestimenta e cumpro o ritual de saída;
Bato a porta e o alarme da portaria avisa que estou na ativa novamente.
Pego o jornal no chão, saio, dou bom dia pra mulher da banca de revistas e olho as manchetes,
buscando finalmente algo que não é rotineiro, as notícias do dia... ou será que é.... nem sei.
No ônibus me vejo no meio de inúmeros estudantes, que como eu,
cumprem suas rotinas , a deles é de ir em busca de conhecimentos sem saber ao certo para que os utilizarão;
Os mesmos rostos mais que conhecidos, já que fazem parte de minha rotina;
Sonolentos, atenciosos, dispersos, todo tipo de rostos, e em comum...
A juventude estampada nas fisionomias ilusionárias.
Chego ao terminal das barcas. O autofalante anuncia a próxima partida.
Ainda há tempo para um desjejum apressado, servido por rostos também conhecidos do dia-a-dia.
Na travessia, me deparo com um visual digno de uma manhã na cidade maravilhosa;
a natureza brinda e se confraterniza com as obras humanas numa harmonia de grandiosidade e beleza.
Em sete minutos estou em outra cidade. Pego um táxi e me dirijo ao local de trabalho.
Logo na portaria principal do estaleiro se inicia minha rotina operária.
Apesar de me sentir estranho, sigo o ritual de todos os que passam por ali:
registro a hora de minha entrada e me vejo no meio de milhares de operários;
que trabalham em enormes embarcações, que mais parecem edifícios negros,
de uma cidade agitada, confusa e obscura, embora produtiva.
Passo pelos rostos que apesar de rotineiros nem sempre são conhecidos;
Identificados apenas pelas cores dos uniformes, que em meio a tantas ferragens...
funcionam como pontos coloridos que em certos momentos se unem formando um arco-íris,
e em outros se dispersam, salpicando e alegrando a tela escura do cenário geral.
Atravesso a obra de arte e chego então a sala, onde passarei as próximas oito horas.
Ambiente duo onde a frieza das máquinas é compensada pelo calor humano de uma equipe de trabalho.
Atividades rotineiras mescladas com as urgências e necessidades do dia-a-dia de um projeto de tecnologia,
me envolvem de tal forma que funcionam como uma hipnose, me impedindo de notar o tempo passar.
O trabalho é interrompido por uma hora, para descanso e almoço.
Retorno então para mais quatro horas de trabalho, até que a sirene informa que:
as horas diárias de rotinas trabalhistas...terminaram.
Faço o mesmo caminho em direção oposta, agora a aquarela já se apresenta desbotada,
pego os meios de transportes rotineiros e retorno a minha casa.
O corpo e a mente, já cansados, procuram por repouso aliado à uma distração rotineira,
que chega através das telas da televisão.
Vejo as notícias do dia, que não tiveram chance de chegar ao meu conhecimento na hora dos acontecimentos.
Simultaneamente faço a última refeição diária.
O sono aperta e preocupado com o despertar de amanhã, cumpro o ritual final do dia:
desligo a TV, apago as luzes da sala, do corredor, ativo o alarme do celular.
Apago a luz do quarto, deito na cama, fecho os olhos e imagino como será o dia de amanhã.
Antes de tentar modificar a rotina do próximo dia, mesmo que em pensamento,
agradeço a Deus pelo dia rotineiro que termina... os olhos ficam pesados....adormeço...e aí...
O celular desperta...
(Neste período estava trabalhando em um projeto de tecnologia, pela RM Sistemas, no Estaleiro Mauá em Niterói. Esta rotina durou 6 meses)